O
m o v i m e n t o
Sabrina

AUR, x Projeto Elã

O movimento Sabrina

Sabrina é uma dádiva, daquelas que quando nascem marcam o mundo das pessoas que estão ao seu redor. A ternura e doçura que transparecem em seu sorriso, contrastam com a pressão, técnica e voracidade que seu corpo expressa quando dança. Tudo isso resulta num movimento único e belo que invadem os nossos olhares e corações quando a vemos. O movimento Sabrina.

Na nossa terceira capa digital do ano, trazemos uma artista única que se destaca em dois movimentos culturais negros que, por incrível que isso possa parecer, ainda geram dúvidas se são considerados como formas genuínas de arte ou não. O funk e o samba. Sabrina é a estrela do Heavy Baile e um dos destaques da Acadêmicos do Salgueiro e nessa entrevista conta como cada vertente artística a formou como mulher e dançarina. Além disso falamos sobre família, desejos sobre ter filhos, sua carreira e o poder do seu corpo como forma de expressão e identidade.

Toda a curadoria dessa capa foi feita em uma parceria inédita entre a AUR, e o Projeto Elã, capitaneado por Lucas Sá. Elã é um projeto de dança voltado em fotografar dançarinas (os) de todos os estilos de dança na rua e de dia. Junto a isso, apresenta o que a dança representa para cada dançarina (o).

Na semana do dia internacional da dança, AUR, e Projeto Elã apresentam: O movimento Sabrina.

Como a sua relação com a sua família te inseriu na música?

Sabrina Ginga: A minha família sempre me incentivou, eles não são necessariamente artistas, mas somos uma família que vive muito a música e dança. É uma família muito festeira, sempre estamos nesse movimento de dançar. Então sempre fui muito incentivada a dançar e isso foi essencial na minha vida como artista e pra seguir a carreira da dança.

Você é destaque de dois movimentos culturais que demonstram toda sua versatilidade como profissional. Como o funk e o samba formaram você como dançarina?

Quem me formou primeiro como dançarina foi o samba. Minha família é metade carioca e metade mineira e os dois lados são muito sambistas. Por conta disso eu cresci inserida na lógica do samba e sempre vivemos essa cultura desde cedo pela vivencia no subúrbio. Fui a primeira vez numa escola de samba aos 3 anos de idade, na Portela no caso. Saí de lá sambando com 3 anos e meio.

Eu cresci no boom do funk, que foi os anos 90. A música da escola era o funk, eu sempre dancei de tudo e era meio que a puxadora dos passinhos na escola e dançava todos os ritmos.

"Se repararmos bem, a formação da mentalidade da nossa sociedade não permite que uma mãe coloque o seu filho pequeno numa aula de samba, por exemplo."

Na minha vida de dançarina comecei a fazer Jazz e Ballet. Uma trajetória meio clichê dentro da dança. Se repararmos bem, a formação da mentalidade da nossa sociedade não permite que uma mãe coloque o seu filho numa aula de samba, por exemplo. Profissionalmente falando veio o Jazz, depois a dança afro, o samba e por ultimo o funk. Cada vertente me da uma informação no meu trabalho. São três movimentos musicais da improvisação, do entendimento musical e histórico. Cada vertente me dá um poder, digamos assim.

Eu gosto muito de falar sobre a dança afro pois foi através dela que eu voltei a dançar profissionalmente com 18 anos. E o poder da dança afro como dançarina, bailarina e profissional da dança, é o sentimento de vibração e incorporação das danças dos orixás. Isso me traz um traço fortíssimo do meu trabalho.

Já o samba, me deu um traço de um nível mais alto de improvisação. O samba me deixa sempre preparada pra qualquer circunstancia. Se minha roupa cair, ou se chover, se o carro parar no meio da avenida e pra me apresentar em qualquer quadra de escola de samba. Então o samba me deu muita confiança em improvisação.

O funk junta todos esses poderes. O lance da incorporação da música, pois o funk é muito ritmado então me traz uma potencia rítmica muito forte e latente. E a improvisação é uma super característica doo funk pois dançamos soltos mas ao mesmo tempo temos passinhos, coreografias e usamos o nosso corpo da maneira que quisermos dentro dessa vertente.

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O heavy baile se posiciona como um dos maiores coletivos musicais do país, fazendo shows e abrindo portas. Qual é a importância de se fazer parte de um coletivo hoje?

Pra mim, a cultura preta é coletiva. E é bom reparar que a cultura preta carioca preza bastante pelo coletivo. É muito importante estarmos nesse mood de coletivo, apesar do Heavy Baile não ser necessariamente um coletivo integralmente da favela. Somos um coletivo mais alternativo onde mesmo que o material bruto seja o funk, é um movimento mais misturado que traz novas linguagens como o dancehall, o eletronico entre outros ritmos pretos.

É incrivel participar de um coletivo, ainda mais sendo a única mulher do grupo pois trabalho muito o feminino dentro de mim. Tenho um holofote no meu trabalho solo e estando dentro de um coletivo predominantemente masculino, se torna uma experiencia muito boa.

Na sua opinião, por onde passa a maior valorização de movimentos culturais como o funk e o samba como forma genuína de arte?

A forma genuína da arte é quando emociona alguém através de um canto de um samba ou pela dança. É preciso ter emoção. Por exemplo: O samba do salgueiro desse ano, que foi o de Xangô, é um tema muito empolgante e verdadeiro pra muitas pessoas. Assim como o samba da Mangueira que é incrível, lindo e mexe com muita gente. Isso traz garra pra cantar, defender um pavilhão e vontade de sambar. Essa emoção é a forma mais genuína da arte.

"A forma mais genuína de valorização da cultura, é a emoção."

E o funk que traz uma outra emoção, que tá em um outro lugar que é tratado como qualquer coisa. Mas traz uma emoção tão forte quanto. É uma emoção do rir, do brincar, de falar putaria. Que é uma emoção muito verdadeira pois a gente sente isso. Todo mundo faz putaria, enquanto houver tesão há vida e isso faz parte da gente. A forma mais genuína de valorização da cultura, é a emoção.

Você pensa em ter filhos?

Já quis mais, agora menos. Difícil ter um filho, um filho preto mais ainda. Tenho receio sobre e principalmente se for menino. Na adolescência, provavelmente vou passar mal por conta do perigo que envolve ser um garoto preto.

Você acha que esse receio em ter filhos é uma preocupação maior da nossa geração, por conta dos assuntos e discussões que temos hoje, ou isso sempre foi uma retórica entre todas as outras gerações?

Acredito que sempre tenha sido uma retórica entre todas as gerações. Principalmente em relação ao homem, por um estereótipo do homem sempre ter que ser ativo, machão e etc. Com isso, o homem preto fica sempre num limbo da marginalidade. Tanto minha vó materna quanto a paterna, ambas tinham esses receios com os seus filhos.

Atualmente você se posiciona como destaque da gigantesca Acadêmicos do Salgueiro e do respeitado coletivo de funk, Heavy Baile. Como você enxerga a sua carreira hoje?

Eu to muito contente por esse momento, principalmente por estar me destacando, me sustentando e estar comunicando tudo através da dança. Isso sempre foi uma meta da minha vida, lutar através da dança e as pessoas entenderem tudo o que quero expressar através do meu corpo. A minha viagem pra França foi um momento de descoberta por todo esse corre que venho fazendo.

"O movimento funk pra mim é um filho do carnaval"

O carnaval me alimenta muito enquanto artista e o funk é um complemento do carnaval. O popular ele vai se renovando e sempre criando novas maneiras de se expressar.

Central School, Bathurst Street, Tasmania 1900s

Central School, Bathurst Street, Tasmania 1900s

Central School, Bathurst Street, Tasmania 1900s

Central School, Bathurst Street, Tasmania 1900s